Ele surgiu enconstado ao muro, com sua bicicleta. Surgiu e já me tomou por amiga, mesmo eu sendo velha para isso. Cabelos encaracolados e oito anos de inocência nos olhos aguados. Perguntou pelo cachorro que eu não tenho e ficou olhando a mangueira com que eu lavava o portão. Ficava dando voltas no quarteirão em sua bicileta e quando vinha, parava e fazia perguntas.
Como é seu nome? Você tem um filho pequeno? Em meio a minha tarefa de lavar o portão soube de suas aventuras, porque ele quer ser aventureiro. Seu nome é Natan, porque nasceu no natal, está no segundo ano e mora pertinho de mim, na rua de trás. Teve catapora e ainda carrega as marquinhas por todo seu corpo, mas já está bom, ficou um mês internado, "pode parecer pouco, mas não é!" sentencia. Não é mesmo!
Educado, ele pergunta e responde nos tempos certos, não invade, não ironiza, não debocha, ainda tem a inocência daqueles que enternecem, os anjos. Na hora que fiz para ser sua amiga, enquanto ele ia e vinha , ele dizia "eu já volto e a gente se vê, se você estiver aqui, espero que esteja!" ele gostou de mim. Disse que sou legal e eu quase beijei suas bochechas rosadas.
Enquanto eu esfrego o portão ele senta na calçada, comendo um lanche que trouxe numa das "viagens", falando sempre sobre suas coisas de criança. Acabo o que tenho a fazer, quase com pena de deixá-lo. "Puxa! Vou sentir saudade! Gostei tanto de você! Ainda bem que agora sei onde você mora e posso vir te ver!" ele diz, realmente triste e eu o beijo bem na marquinha da catapora em sua testa suada.
Até qualquer dia Natan, também gostei de você!
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
Retrato Falado
Eles estavam sentados muito juntos, sobre a pedra ainda morna pelo sol do dia inteiro. Ele a abraçava por trás, enlaçando-a com braços e pernas. Apoiava a menina corada e feliz em seu peito ainda agitado. Ambos sorriam o sorriso sutil do amor recém concretizado e olhavam para o horizonte.
Ela pousara uma das mãos em sua coxa nua e a outra sobre os braços que lhe enlaçavam a cintura. Eles tinham por testemunha um céu muito azul e por moldura as muitas árvores da floresta silenciosa. Quase nada os interompia, quase nada os interessava, além do compasso ritmado de seus corações irmãos, de suas almas gêmeas.
Ele beijava o lóbulo de sua orelha, ela beijava-lhe a mão forte. Trocavam murmúrios apaixonados e beijos doces e urgentes. Não sabiam as horas, nem queriam saber. Não queriam ir embora, não queriam se despedir. Pensavam em nada, só queriam estar ali. Ela se sentia segura, feliz, inteira, apesar do medo do amanhã. Ele não pensava em nada, só vivia o amor que se apresentava.
Quando enfim resolveram ir embora o semblante dos dois se alterou. Ele ainda a protegia, a guiava, amparava e amava. Ela ainda o olhava intensamente, como se precisasse gravar na memória cada detalhe seu, para poder lembrar-se depois.
Viviam assim, se amando e se despedindo...
Ela pousara uma das mãos em sua coxa nua e a outra sobre os braços que lhe enlaçavam a cintura. Eles tinham por testemunha um céu muito azul e por moldura as muitas árvores da floresta silenciosa. Quase nada os interompia, quase nada os interessava, além do compasso ritmado de seus corações irmãos, de suas almas gêmeas.
Ele beijava o lóbulo de sua orelha, ela beijava-lhe a mão forte. Trocavam murmúrios apaixonados e beijos doces e urgentes. Não sabiam as horas, nem queriam saber. Não queriam ir embora, não queriam se despedir. Pensavam em nada, só queriam estar ali. Ela se sentia segura, feliz, inteira, apesar do medo do amanhã. Ele não pensava em nada, só vivia o amor que se apresentava.
Quando enfim resolveram ir embora o semblante dos dois se alterou. Ele ainda a protegia, a guiava, amparava e amava. Ela ainda o olhava intensamente, como se precisasse gravar na memória cada detalhe seu, para poder lembrar-se depois.
Viviam assim, se amando e se despedindo...
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Elas possuíam olhos largos e opacos. As duas nem ao menos se conheciam, mas percebi nelas o mesmo olhar. Um olhar desatento e fugidio, onde não cabiam sorrisos. Olhares pedintes, que diziam palavras diferentes das proferidas pelos lábios. Um olhar denso, onde cabia toda uma dor e toda uma súplica de amor. Eram tão jovens ainda, mal podiam sustentar a minha curiosa surpresa, mal podiam conter sua própria tristeza.
Essas meninas, carentes de um amor que lhes era de direito, o amor de um pai, eram somente olhos vagos, imensos, assustados, pedintes, pois todo o resto se perdia em futilidade. Olhares onde eu poderia me perder na esperança de fazer a diferença.
Olhares onde eu poderia me encontrar na imensa dor que eu quase entendia. Olhares que eu surpreendi envergonhada, na impossibilidade de poder retê-los ou mudá-los em brilho, em luz, em alegria.
Duas meninas, duas histórias, coincidências, abandono e medo e olhares grandes e dispersos pelo mundo. Uma quase cegueira que as obriga a ver mais, enquanto se tornam olhos, apenas olhos, que gritam em silêncio para quem tem pode ouvir.
Essas meninas, carentes de um amor que lhes era de direito, o amor de um pai, eram somente olhos vagos, imensos, assustados, pedintes, pois todo o resto se perdia em futilidade. Olhares onde eu poderia me perder na esperança de fazer a diferença.
Olhares onde eu poderia me encontrar na imensa dor que eu quase entendia. Olhares que eu surpreendi envergonhada, na impossibilidade de poder retê-los ou mudá-los em brilho, em luz, em alegria.
Duas meninas, duas histórias, coincidências, abandono e medo e olhares grandes e dispersos pelo mundo. Uma quase cegueira que as obriga a ver mais, enquanto se tornam olhos, apenas olhos, que gritam em silêncio para quem tem pode ouvir.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Ela tinha uma doença. Doença da alma e do coração. Tinha constantes ataques de nostalgia que a faziam partir para dentro de si mesma e de lá retornar triste, com a saudade lhe doendo forte no peito.
Esses surtos eram sempre provocados por um cheiro, um evento corriqueiro qualquer ou ainda pela imensa falta que sentia de quando era cheia de sonhos felizes. A saudade vinha ao seu encontro como uma lufada quente num dia de inverno, era quase um conforto. Mesmo que por um breve momento, essa moléstia aquecesse o seu corpo, também tinha o poder de adormecer suas vontades, carregando-a para longe daquilo que ela mais prezava.
No entanto, os ataques eram mais fortes que sua vontade e mais frequentes que sua capacidade de sufocá-los. Primeiro ela sentia o alheamento e então, iniciava a viagem de forma quase física, em um torpor delicioso ela fechava os olhos numa entrega maior que a própria existência. Quando tudo enfim passava, num segundo, ou numa vida, vinha a tristeza. Seca, profunda, latente. Não fosse o mundo real, não fossem as vozes a chamá-la de volta, não fossem mesmo as queixas de seu alheamento e tristeza, ela jamais retornaria, pois que lhe bastava estar assim.
Ela queria entender, queria poder deter a alavanca que iniciava o processo e adiar indefinidamente a saudade.
Mas eis que então vinha o declínio, o medo, a culpa, a frustração. Nada mais fazia sentido, nada mais era possível, além de retornar a rotina e sufocar todo o resto. Sua doença era da alma e incurável.
Ela queria entender, queria poder deter a alavanca que iniciava o processo e adiar indefinidamente a saudade.
Mas eis que então vinha o declínio, o medo, a culpa, a frustração. Nada mais fazia sentido, nada mais era possível, além de retornar a rotina e sufocar todo o resto. Sua doença era da alma e incurável.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Os pensamentos eram como água corrente no turvo riacho de sua mente. Seguiam o curso incontrolável de seus anseios e desejos como se fluíssem por entre os obstáculos do caminho. Muitas vezes ela queria deter esse rio, deter a correnteza desumana que desgastava seus pensamentos no momento mesmo em que os tinha ali, ao alcance das mãos.
Tentava construir a represa com papel e caneta nas mãos, amiúde pedaços de guardanapo, retalhos de possibilidades que dobrava e guardava nos bolsos, quando a corrente trouxesse mais um tanto de pensamentos que ela pudesse reter. E nem podia reter o todo, tal a força de sua vontade.
Enquanto ela se entregava às torrentes, todo o resto passava ao largo. Podia perder-se no emaranhado de coisas pensadas, desejadas, inventadas e deixar de ser qualquer coisa, para estar ali, boiando à superfície do que sabia não ser seu, mesmo que só existisse em seu cérebro agitado. Nessas horas de tromba d´água, aprendera a ser quase o rio, deixar-se levar com toda aquela cristalinidade que feria os olhos e calava a boca.
Ia se deixando levar, quietinha para não bater nas pedras, tensa para não ser desviada para a margem, o que a deixava muito frustrada e triste, e só sentia medo quando chegava no fim do caminho. porque não era o fim simplesmente, era a entrega.
Ia se deixando levar, quietinha para não bater nas pedras, tensa para não ser desviada para a margem, o que a deixava muito frustrada e triste, e só sentia medo quando chegava no fim do caminho. porque não era o fim simplesmente, era a entrega.
A entrega para a queda e o que dela resultasse. Vertiginosamente descia, naquele rio que era então cachoeira, onde os ruídos eram mais intensos e a velocidade ainda mais louca, porém a luminosidade era respingada, imperfeita. Caía dentro de si mesma, de sua turva cabeça de mulher, esperando um lugar melhor para ser em plenitude. Então o rio voltava a ser rio, sua mente voltava a ser inquieta e ela novamente voltava a fluir dentro de si mesma. Incansável e resoluta.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Dias de chuva deveríam ser tributados ao sono. Manhãs cinzas e frias de outono pecisam ser dedicadas aos sonhos, à hibernação de alegrias, angústias e planos. Entre dormitar e beber um chocolate quente nada mais que a meia nos pés e o cobertor exalando o calor do corpo.
No entanto, ela caminhava sobre a calçada molhada, tentando driblar as poças e obstáculos enquanto se equilibrava na sombinha colorida. À sua frente um horizonte cor de cimento e a bruma leve da madrugada indo embora.
Um vento cortante lhe batia na face corada e ela cerrava os dentes para não tiritar pelas ruas e acrescentar mais necessidade de equilíbrio a seus passos incertos. Os pés recebiam todo o impactante e gélido sopro do chão e, embora secos, pareciam reter ali todo o frio daquele dia inexplicavelmente triste. Então ela marchava resoluta, em direção ao trabalho, ombros contraídos, rosto e pés gelados e o coração pesado de todas as coisas que haviam dentro dela e eram cinzas e frias como aquela manhã.
Podia quase dizer que deixara sua alma em casa, sobre a cama desfeita e acolhedoramente bagunçada. Ia sem alma que a envolvesse, sem a vontade dos que se sentem vivos, sem calor. Caminhava fria como o dia, cinza como o céu e vazia como a bruma que se ia embora enquanto a cidade acordava. Passaria o dia acizentando a vida e lutando para ter forças de correr de volta para casa em busca do calor que deixara sob seu cobertor. Passaria o dia sendo frio, sendo chuva, sendo quase nada.
domingo, 15 de maio de 2011
Ela o olhava com ternura. Um carinho forjado em anos de convivência e emoções compartilhadas. O conforto e a rotina dos sentimentos que a mantinham serena, composta e íntegra. O marca passo lento e previsível dos infindáveis dias e horas e minutos. Uma quase agonia, uma quase morte e o adiamento covarde da extrema unção.
A mesma serenidade dos últimos anos a afligia como uma onda que atropela os gestos e deforma o equilíbrio. O barco fazia água, naufragar era questão de tempo. No entanto, ela permanecia naquele deserto de atitudes, esperando um sinal qualquer no horizonte de seus sonhos.
A sua covardia maior era não aceitar a inexistência de alternativas. Insistia na fragilidade dos laços rotos e na segurança da aridez de perspectivas. Preferia mesmo a confortável mesmície do casulo de dor e medo no qual se via envolvida várias vezes ao dia. Uma tristeza que ia tomando conta de toda a sua alma, tornando-a opaca como uma bruma densa no alto da montanha.
E quando o desespero se tornava insuportável, quando seu coração pesava toneladas de angústia e dúvidas ela se entregava aos embalos de um sono sem sonhos, profundo e hibernava tudo o que não conseguia resolver.
Quando o tempo se instala nas relações, ele cria um monstro chamado estabilidade. Um monstro que faz com que os seres se acomodem confortavelmente nos planos que fizeram por longa vida. Então os sonhos, antes muitos e mutáveis, se tornam uma nuvem carregada de projetos falidos, anseios adiados e a consequente verdade dos fatos; não somos nossas atitudes diárias, não somos nossos gestos controlados, não somos nossos silêncios contritos, não somos nossos sorrisos gelados.
Quando o tempo se instala nas relações, ele cria um monstro chamado estabilidade. Um monstro que faz com que os seres se acomodem confortavelmente nos planos que fizeram por longa vida. Então os sonhos, antes muitos e mutáveis, se tornam uma nuvem carregada de projetos falidos, anseios adiados e a consequente verdade dos fatos; não somos nossas atitudes diárias, não somos nossos gestos controlados, não somos nossos silêncios contritos, não somos nossos sorrisos gelados.
Somos como vulcões inativos, calmaria sob uma superfície fumegante. E, ainda que nos agarremos como náufragos às regras, ansiamos pela lava incandescente e pelo furor de uma erupção.
Ela continuava olhando-o com ternura, quase voltando-lhe as costas, quase dizendo-lhe adeus! Quase...
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