terça-feira, 17 de maio de 2011

Dias de chuva deveríam ser tributados ao sono. Manhãs cinzas e frias de outono pecisam ser dedicadas aos sonhos, à hibernação de alegrias, angústias e planos. Entre dormitar e beber um chocolate quente nada mais que a meia nos pés e o cobertor exalando o calor do corpo.
No entanto, ela caminhava sobre a calçada molhada, tentando driblar as poças e obstáculos enquanto se equilibrava na sombinha colorida. À sua frente um horizonte cor de cimento e a bruma leve da madrugada indo embora.
Um vento cortante lhe batia na face corada e ela cerrava os dentes para não tiritar pelas ruas e acrescentar mais necessidade de equilíbrio a seus passos incertos. Os pés recebiam todo o impactante e gélido sopro do chão e, embora secos, pareciam reter ali todo o frio daquele dia inexplicavelmente triste. Então ela marchava resoluta, em direção ao trabalho, ombros contraídos, rosto e pés gelados e o coração pesado de todas as coisas que haviam dentro dela e eram cinzas e frias como aquela manhã.
Podia quase dizer que deixara sua alma em casa, sobre a cama desfeita e acolhedoramente bagunçada. Ia sem alma que a envolvesse, sem a vontade dos que se sentem vivos, sem calor. Caminhava fria como o dia, cinza como o céu e vazia como a bruma que se ia embora enquanto a cidade acordava. Passaria o dia acizentando a vida e lutando para ter forças de correr de volta para casa em busca do calor que deixara sob seu cobertor. Passaria o dia sendo frio, sendo chuva, sendo quase nada.

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