Ela o olhava com ternura. Um carinho forjado em anos de convivência e emoções compartilhadas. O conforto e a rotina dos sentimentos que a mantinham serena, composta e íntegra. O marca passo lento e previsível dos infindáveis dias e horas e minutos. Uma quase agonia, uma quase morte e o adiamento covarde da extrema unção.
A mesma serenidade dos últimos anos a afligia como uma onda que atropela os gestos e deforma o equilíbrio. O barco fazia água, naufragar era questão de tempo. No entanto, ela permanecia naquele deserto de atitudes, esperando um sinal qualquer no horizonte de seus sonhos.
A sua covardia maior era não aceitar a inexistência de alternativas. Insistia na fragilidade dos laços rotos e na segurança da aridez de perspectivas. Preferia mesmo a confortável mesmície do casulo de dor e medo no qual se via envolvida várias vezes ao dia. Uma tristeza que ia tomando conta de toda a sua alma, tornando-a opaca como uma bruma densa no alto da montanha.
E quando o desespero se tornava insuportável, quando seu coração pesava toneladas de angústia e dúvidas ela se entregava aos embalos de um sono sem sonhos, profundo e hibernava tudo o que não conseguia resolver.
Quando o tempo se instala nas relações, ele cria um monstro chamado estabilidade. Um monstro que faz com que os seres se acomodem confortavelmente nos planos que fizeram por longa vida. Então os sonhos, antes muitos e mutáveis, se tornam uma nuvem carregada de projetos falidos, anseios adiados e a consequente verdade dos fatos; não somos nossas atitudes diárias, não somos nossos gestos controlados, não somos nossos silêncios contritos, não somos nossos sorrisos gelados.
Quando o tempo se instala nas relações, ele cria um monstro chamado estabilidade. Um monstro que faz com que os seres se acomodem confortavelmente nos planos que fizeram por longa vida. Então os sonhos, antes muitos e mutáveis, se tornam uma nuvem carregada de projetos falidos, anseios adiados e a consequente verdade dos fatos; não somos nossas atitudes diárias, não somos nossos gestos controlados, não somos nossos silêncios contritos, não somos nossos sorrisos gelados.
Somos como vulcões inativos, calmaria sob uma superfície fumegante. E, ainda que nos agarremos como náufragos às regras, ansiamos pela lava incandescente e pelo furor de uma erupção.
Ela continuava olhando-o com ternura, quase voltando-lhe as costas, quase dizendo-lhe adeus! Quase...
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