Os pensamentos eram como água corrente no turvo riacho de sua mente. Seguiam o curso incontrolável de seus anseios e desejos como se fluíssem por entre os obstáculos do caminho. Muitas vezes ela queria deter esse rio, deter a correnteza desumana que desgastava seus pensamentos no momento mesmo em que os tinha ali, ao alcance das mãos.
Tentava construir a represa com papel e caneta nas mãos, amiúde pedaços de guardanapo, retalhos de possibilidades que dobrava e guardava nos bolsos, quando a corrente trouxesse mais um tanto de pensamentos que ela pudesse reter. E nem podia reter o todo, tal a força de sua vontade.
Enquanto ela se entregava às torrentes, todo o resto passava ao largo. Podia perder-se no emaranhado de coisas pensadas, desejadas, inventadas e deixar de ser qualquer coisa, para estar ali, boiando à superfície do que sabia não ser seu, mesmo que só existisse em seu cérebro agitado. Nessas horas de tromba d´água, aprendera a ser quase o rio, deixar-se levar com toda aquela cristalinidade que feria os olhos e calava a boca.
Ia se deixando levar, quietinha para não bater nas pedras, tensa para não ser desviada para a margem, o que a deixava muito frustrada e triste, e só sentia medo quando chegava no fim do caminho. porque não era o fim simplesmente, era a entrega.
Ia se deixando levar, quietinha para não bater nas pedras, tensa para não ser desviada para a margem, o que a deixava muito frustrada e triste, e só sentia medo quando chegava no fim do caminho. porque não era o fim simplesmente, era a entrega.
A entrega para a queda e o que dela resultasse. Vertiginosamente descia, naquele rio que era então cachoeira, onde os ruídos eram mais intensos e a velocidade ainda mais louca, porém a luminosidade era respingada, imperfeita. Caía dentro de si mesma, de sua turva cabeça de mulher, esperando um lugar melhor para ser em plenitude. Então o rio voltava a ser rio, sua mente voltava a ser inquieta e ela novamente voltava a fluir dentro de si mesma. Incansável e resoluta.
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